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Estela e Abigail – Colocar ou tirar?

11/04/2012
by Douglas Freitas

O jeito é colocar numa balança (mesmo que imaginária) o que de fato eu quero. Minha mente é fértil e vocês podem me chamar de louca, mas eu consigo ver perfeitamente, bem na minha frente, dois pratos enormes e equilibrados.

De repente, em cima de um deles, surgem duas peças brilhantes e gelatinosas de 350 ml cada uma. Meus silicones… Uau! Contenho-me para não estender as mãos e segurá-los. Quero sentir a consistência, colocá-los sobre os meus peitos e olhar no espelho para ver como fica. Vou ficar mais imponente, tenho certeza!

A contragosto sou levada a olhar para o outro prato. O que é aquilo? Parecem dois sashimis de salmão, bem fininhos. Ou talvez alguns cortes de carpaccio. Não deveria, mas é tão atrativo também…

Droga, não era para ser tão difícil assim. Obviamente, a balança devia estar pendendo para um lado (e eu já sei qual), mas reluto em aceitar. “Porque eu tenho que escolher?”, me pergunto mesmo já sabendo a resposta. Uma manicure não pode se dar ao luxo de ter tudo o que quer.

Coloco ou tiro? Hein, gente?!? Isso é sério, poxa! Vocês devem estar achando que se trata de uma bobagem, não é? Não, não é. Pára e pensa comigo…

Enquanto um peito é um peito, um peitão é um peitão. Bem diferente! Um ex-namorado falou uma vez que os meus pareciam duas peras. PERAS? Até aí estranho, mas na mesma semana ele me traiu e trocou por uma verdadeira vaca… Leiteira! Só quem já foi traída e trocada sabe do que estou falando. Orgulho ferido, recalque, ódio, sentimento de posse. Tudo isso e de forma muito intensa. Não superei!

Por outro lado, ouvir a Carol (que é uma atriz que eu admiro MUITO) assumir para todo mundo a cirurgia na vagina mudou completamente a vida dela é INSPIRADOR. Eu não consigo pensar em outra coisa desde que vi aquele programa. Cheguei a ler na Internet que é possível até reconstituir o hímen. Meninas, vocês sabem o que isso significa? RECOMEÇO!

Sim, recomeço. O que vocês me diriam se pudesse voltar no tempo e ser virgem de novo? Eu iria adorar! Acho que a nossa falta de sorte começa no momento que a gente abre as pernas para o primeiro cara errado. Falo por experiência própria: dia, pessoa e pegada errada. Vejam só no trauma que deu: traste atrás de traste, um atrás do outro em fila. Eu não aguento mais.

Só a possibilidade de poder voltar a escolher o primeiro a me re-desvirginar…. Pode ser o início de uma nova era!!!

E quanto aos peitos?

Vou ligar agora mesmo pro SAC do Grupon e dizer que vou usar o meu cupom em outro tipo de cirurgia. Nos falamos depois, pessoal.

Beijos,

Estela

Cap. 01 – Estela e Abigail

09/04/2012
by Douglas Freitas

Estou há trinta e dois minutos clicando freneticamente no “finalizar compra”. Quando parece que finalmente vai, aparece o aviso de que “a página da web não pode ser exibida”. Buc$@&! Xingo depois de mais uma tentativa e me espanto na mesma hora com o palavrão que acabei de pronunciar. Bu-ce-ta? Desde quando falo bu-ce-ta?

Merda, saco, caralho… Ok! Buceta não, definitivamente.

Respiro fundo (como se fosse adiantar) e repito todo o processo: carrego a página principal, seleciono a minha cidade, deslizo sobre as ofertas imperdíveis do dia e clico em cima do produto com confiança. “Sim, eu tenho certeza que quero esse produto”, confirmo para o site.

A próxima página carrega mais rápido que das outras vezes o que me deixa muito otimista. Dessa vez vai! Segurando a respiração digito o mais rápido que posso os dados do meu cartão de crédito. 10 vezes sem juros, seleciono. Tudo perfeito até agora.

“Pronto, é só confirmar”, penso apreensiva relembrando todas as outras vezes. Checo o sinal da internet (que eu divido com meu vizinho de porta) e tudo parece perfeitamente normal. Rápido até. Bom, “por favor, Deus, me ajude”, recorro somando esforços positivos enquanto deslizo o mouse até o botão e clico mais uma vez!

Opa! Tela nova!!! Como assim o Groupon pede desculpa pelos transtornos? COMO ASSIM TENTE NOVEMENTE MAIS TARDE?  Que história é essa de alto tráfego? Instabilidade nos servidores? Tenho vontade de chorar… Isso não pode estar acontecendo! Quer dizer que tem mais pessoas interessadas? Mas lá estava escrito que eram as últimas 15 ofertas… E se… Não!

Aperto o f5 e cruzo os dedos para que pelo menos eu não precise redigitar os dados pessoais, mas uma mensagem salta na tela falando alguma coisa de um relatório que não pode ser carregado. Isso não devia estar acontecendo em pleno século XXI e em um site grande como deles!

Vou até a cozinha, finjo não estar mais interessada na compra, tento pensar em alguma coisa, mas enganar quem?!?  Não tenho cabeça para outra coisa. Não sou de desistir do que eu quero. Recarrego a página e sinto meu coração disparar com o aviso de que só restam três unidades.

Cruzo os dedos, rezo, faço promessa e finalmente compro o silicone, com implante incluso. Mal posso acreditar quando leio que minha compra foi efetuada. Espera! “Estamos aguardando a confirmação do seu cartão de crédito”? Eu me esqueci de ver o meu limite!

Mas no fim das contas dá tudo certo. O silicone é meu finalmente. Nem posso acreditar que vou dar uma turbinada e pagando tão pouco! Meu Deus, eu amo esses sites de compra coletiva!!!

Sento no sofá em êxtase mal acreditando em tudo o que acabou de acontecer. Eu consegui. Ai que vontade de gritar. “EU CONSEGUI!!!!!!!!!!!!!!!!!”, não me contenho. Quero contar pra todo mundo. Não! Melhor! Vou sumir e aparecer com os meus novos seios, enormes e bem empinados. Se as pessoas perguntarem vou fazer como as artistas e responder que é impressão, que não tem nada de diferente. Hahahaha. Realmente é divertido pensar no choque das pessoas. Imagina a cara da Flávia ou o arrependimento do Alberto. Mal posso esperar…

Ligo a televisão em um programa de fofoca. Lá está ela. Cabelos impecáveis, aplique com certeza. Unhas bordadas com uma técnica que virou febre entre as minhas clientes. Observo os seios, duas bolas bem redondas, e tento imaginar quantos mls de silicone ela colocou. Quero os meus iguais!

Desperto dos meus pensamentos a tempo de escutar cada uma das palavras que saem da boca de Carol Petricovisk:

- Sim, eu fiz uma cirurgia ! Não entendo o que isso pode ter de tão polêmico. Não tenho nada contra cirurgias plásticas, desde que feitas para nos deixar mais bonitas. Se eu fiquei mais bonita? Pergunte ao meu marido. Ele adorou! Minha vida mudou depois que eu fiz essa mexidinha em minha vagina. Recomendo!

Quase caio da cadeira. Cirurgia onde?!?

O letreiro no canto inferior da tela muda de “A incrível revelação de Carol Petricovisk” para “Vaginoplastia: saiba no programa de hoje tudo sobre o rejuvenescimento vaginal, a cirurgia que vai mudar a sua vida!”.

Pronto. Isso não me sai mais da cabeça.

Suas engraçadas!

08/03/2012
by Douglas Freitas

— Leia também: Dia da Mulher! (2009)

Entre as tantas coisas que um menino pode achar de vocês meninas – bonitas, feias, gostosas, chatas, barangas,… – eu sempre fiquei com “engraçadas”. Eu me divirto com as histórias, dramas e até com a TPM, um “evento” imperdível de puro sarcasmo, acidez, insatisfação. Não me chamem de insensível! Também não precisa chorar nem me xingar! Eu sei que é terrível, tem a cólica, os sangramentos, coisa e tal, concordo que deve ser um saco usar absorvente e ter que conferir se não vazou e manchou a calça, mas sinceramente eu não tenho culpa de poder observar tudo isso de fora…

A gente aprende quando cresce que o mundo não é como no Xou da Xuxa, meninos contra meninas, valendo! A gente se completa (na maioria das vezes), embora discorde em muitos assuntos. Ok, em todos os assuntos. Há exceções, claro: tem meninas que são como meninos (as maria-homens, não necessariamente lésbicas), e meninos que são como meninas (obviamente gays). Mas tem também lésbicas que são como meninas e gays que não são como meninas!!! Confuso! Pra vocês e pra gente também.

Aí você se apaixona por um menino que não parece, mas é gay. E sofre. Sofre. E sofre mais um pouco. Muito drama! E tenta sair com o outro que, como tenta alertar sua amiga, “não presta”. “Inveja”, você conclui dando de ombros. Qualquer amizade (por mais duradoura que seja) vale menos do que a palavra daquele cara M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O que você acabou de conhecer, não é mesmo? Sim, aí você se afasta das amigas (que simplesmente não entendem o seu namoro) até o dia em que PASME, você descobre que ele é um cafajeste!

Você volta a procurar as amigas e é obrigada a ouvir um sonoro “eu já sabia”. Tudo bem, elas sabiam mesmo. Mas aí ele volta a te procurar, você volta a acreditar e tudo se repete. Você se sente uma idiota pela segunda, terceira, quarta vez até que cai na real e parte para outra.  Até que apareça o príncipe encantado (hahaha, vocês também acreditam nisso), sobram histórias e muita confusão. Eu adoro tudo isso. De verdade, não me entendam mal… vocês são engraçadíssimas!


*Publicado originalmente em TDM – tudodimenina no dia 02/08/2011. Vale o repost, meses depois, em homenagem ao dia de hoje. Parabéns, mulheres!

Sneak Peek

01/02/2012
by Douglas Freitas

O remake de “Mais um na multidão – O diário de Doug Spencer”, a estreia de “Estela e Abigail” e a maior aposta do semestre: a websérie “Avenida Protesto” com a participação de Fernanda Ervolino na pele de “Mariana Marx”, a garota que é fã do velho barbudo (aka Karl Marx) e que aprontará bastante na avenida mais famosa do país.

Tem também uma proposta super bacana de integrar o meu Instagram com o Ddelivery! Vai ser inusitado, diferente e totalmente pré-conceituoso, mas isso fica em segredo até o próximo post, ok?

E Roberta e Diogo, o nosso casal de sorte? Darão as caras por aqui?
Hmmm… N-Ã-O C-O-N-T-O! Ficou curioso(a), não é? Que bom… Esse é um ótimo jeito de começarmos.

Está aberta a temporada 2012 do douglasfreitas.com!

;)

 

FINAL – Voando sobre as nuvens

29/12/2011
by Douglas Freitas

Christina Aguilera – Hurt

 AntesCapítulo 01 – Amor de pista, fica?
Capítulo 02 – A queima do sutiã 
Capítulo 03 – Xixi desavergonhado
Capítulo 04 – Antes mal acompanhada do que só 
Capítulo 05 – Jogo de Cintura e atitude 
Capítulo 06 – O lixo é luxo 
Capítulo 07 – Discos de Raul 
Capítulo 08 – Balança, mas não cai… despenca 
Capítulo 09 – A cabra expiatória 
Capítulo 10 – As dez melhores notícias
Capítulo 11 – A hora H (de horrível)

Capítulo 12 – Amor de pista não fica
Capítulo 13 – sacudir a poeira e recomeçar

Cinco coisas que o Tiago disse por livre e espontânea vontade. Okay, talvez eu tenha sutilmente dado a ele a chance de me explicá-las, assim mesmo como quem não quer nada, falando apenas por falar.

1) Ele e Joana (a loira, peituda, bronzeada E carioca) nunca tiveram nada. Nada mesmo, e “eu era louca de pensar aquilo”.

2) Ele desconfiou desde o princípio que a Fabi era eu. Eu duvido, mas deixei ele pensando que eu acredito na versão dele.  E disse que realmente ficou fascinado com a criatividade do sobrenome Drummond. “Só você mesmo, Roberta…”

3) Ele não atendeu ou respondeu as minhas mensagens porque precisava colocar os sentimentos em seus devidos lugares. Quando sentiu que era hora, percebeu também que não tinha tempo a perder. Se não tivéssemos nos encontrado no MSN ele COM CERTEZA me ligaria no mesmo dia. EU ADOREI ISSO!

4) Não existe uma conspiração contra a gente. A minha sogra, o irmão e os amigos dele não me odeiam, nem querem nos separar. Coisa boa de ouvir, mas continuo de olhos bem abertos em relação a isso. É bom estar atenta…

5) Ele me ama e quer ter filhos comigo. Não agora, mas quem sabe no ano que vem. Okay, 38 anos… dá para esperar. Fazendo os cálculos, quando nossa filha tiver 18 anos vai poder ouvir o pai discotecar no auge de seus 46 anos. Nessa época eu vou estar com…  CINQUENTA E SEIS? Meu Deus do céu… uma senhora de idade na boate! Não. A partir de hoje não tomo mais pílulas anticoncepcionais.

Ah! Teve também as cinco coisas que eu tive que prometer, numa espécie de acerto, negociação. Assenti com a cabeça, mas algumas horas, despistadamente, cruzei os dedos dentro do sapato. Não dava para estar 100 % de acordo com tudo aquilo:

1) Eu iria respeitar a profissão dele e nunca mais tentaria afastá-lo das pickups;

2) Eu iria respeitar o lugar de trabalho dele e PRINCIPALMENTE os discos velhos, quero dizer, raros.

3) Eu ia aceitar que ele pagasse algumas contas e dividisse outras sem ligar para o fato dele ser dez anos mais novo. Como assim??? Eu alguma vez reclamei disso? Não lembro.

4) Eu iria tentar me aproximar sinceramente da mãe, amigos e irmão dele.  Sem pré-conceitos ou ressalvas, sendo eu mesmo, a alegre, carismática e divertida Roberta. Eles iam ver e entender o porquê dele me amar tanto. Como assim entender???? Eles achavam um absurdo o Tiago estar comigo??? Sabia! Eu tinha certeza que existia um complô.

5) Teríamos no mínimo dois filhos. Ele não ligava para o fato das estrias ou peitos despencarem depois  do período de amamentação, ou a flacidez… bom, cruzei os dedos antes de dizer que sim. Estou perdoada. A gente pode tratar desse assunto depois do primeiro.

Fomos mais cautelosos dessa vez. Decidimos não voltar a morar juntos assim, logo de cara. Mas se vocês querem saber, passávamos boa parte do tempo conectados no MSN. Não é que ficávamos teclando o tempo inteiro, mas sempre tínhamos um ao outro ali, disponível para um “eu te amo” ou “que saudade de você que me bateu agora”.

A gente se  encontrava para ir ao cinema, teatro, jantar. Eu ia a casa dele, quer dizer, da mãe dele, e ele ia à minha. Isso foi ótimo porque naturalmente me aproximou da minha sogra. Acho que ela ainda não me via como a “alegre, carismática e divertida Roberta” (embora eu me esforçasse muito para passar essa imagem), mas pelo menos já não me julgava como “a vagabunda dez anos mais velha que meu filho”.

Eu cheguei a fazer um stakeholder management de todos os pontos de contato do Tiago, com direito a uma tabelinha no Excel. Tinha um espaço com os “próximos passos”, em que eu escrevia as ações que eu faria na semana  para ganhar mais aliados e, principalmente, fazer com que as pessoas que não gostavam de mim, passassem (1) a me aceitar; (2) a me tolerar; (3) gostar de mim; (4) me convidar para um jantar só de amigos.  Naquela semana mesmo eu ia almoçar com a Joana para pedir dicas de bons lugares para me bronzear.  Era fundamental que eu e ela nos déssemos super bem, além de que eu poderia sondar se realmente não existia nada entre ela e o Tiago.

A minha relação com a minha sogra mudou completamente com a suspeita de gravidez. O Tiago quase enlouqueceu e eu tive que deixar claro que eram apenas algumas semanas atrasada, “mas que isso nunca tinha acontecido”.  Fiz o teste da farmácia, mas não deu nem azul nem rosa o que me deixou bastante confusa. Marquei o exame de sangue para o outro dia.

Para completar, o irmão do Tiago tinha acabado de chegar dos EUA onde passara os dois últimos anos fazendo mestrado.  Resolvi oferecer um jantar de boas vindas na minha casa e não economizei nos vinhos e menu. Eu bebi apenas uma taça sob o olhar atento da minha sogra. Convidei também a Fernanda e a Clara (quem sabe o Murilo não se interessava por um delas) e os meus pais. Foi uma noite incrível, uma verdadeira celebração junto com as pessoas que eu mais amo.

- You are the sun and moon, You are the spring in bloom, You are the one, You are the air I breathe, The only star I can see, You are the one, You are the air I breathe, The only star I see, You are the heart of the Sun, Yes, you are the one

- Hummm… bom dia!

- Bom dia! Finalmente você acordou. Essa já é a terceira música que eu canto e você aí imóvel.

- Você está brincando…

- É sério! Acordei inspirado. E olhar você dormindo… É encantador!

- Que horas você levantou?

- Umas sete, eu acho.

- E quantas horas são agora?

- Quase nove…  Levanta e venha ver o que eu preparei para você.

- Ah, mas ainda são nove horas. Que horas fomos dormir? Umas duas?

- Acho que sim. A minha mãe e a sua não paravam de falar sobre o futuro netinho.  Pensei que íamos ter de mandá-las embora – riu.

- E sua mãe controlando o que eu bebia?

- Vamos ter que ser bastante pacientes nos próximos meses.

- Sim…

- Bom, o dia está lindo lá fora… – me beijou.

- Eu tenho que escovar os dentes – disse me desvencilhando e colocando a mão na boca.

- Não ligo. – E me agarrou novamente, só que agora fazendo cócegas.

- Pára…rsss…. O que você estava cantando quando eu acordei?

- Era Heart of the Sun…  Olhei para você deitada , o brilho do sol passando pela fresta da cortina. Está um dia lindo lá fora. Acho que a gente dever…

- Canta mais um pouco? – disse interrompendo-o.

- Call my name if you’re in trouble, We all need someone to lean on, Because after all when darkness falls, Take my hand and shine your light on, In the end we’re only humans

Tudo para ficar mais uns minutinhos que fosse na cama, mas não adiantou. O Tiago estava ansioso para me mostrar a mesa de café da manhã que havia preparado. Saímos do quarto e eu me surpreendi com a sala cheia de rosas vermelhas. Senti vontade de chorar. Deve ser a gravidez, não é? A gente fica mais emotiva… Os olhos dele brilhavam e o sorriso no rosto mostrava que estava realmente satisfeito com a minha reação.

Foi quando tudo aconteceu. Rápido e segundo ele forte DEMAIS.  ”Me ajuda!” Um passo,  um grito, as pernas cruzando, a feição do rosto se entortando, até que um lado se paralisasse. No começo achei que fosse brincadeira, mas houve um novo grito de dor. Jamais vou me esquecer daquele som. Quis ajudar, mas não sabia exatamente o que fazer. Peguei o celular, liguei para o 193, depois para o 192 enquanto chorava copiosamente. Sem conseguir falar, no meu colo , os olhos de Tiago bem abertos imploravam por ajuda.  Meu Deus o que eu podia fazer?  O quê?

O Samu chegou primeiro, depois os bombeiros. Pelo que disseram, tarde demais.  AVC seguido de parada cardíaca. Tentaram reanimá-lo, sem sucesso. Não tinha o que ser feito.  Tudo ali na minha frente… “Salvem a vida dele… por favor… salvem a vida do amor da minha vida“, implorei inúmeras vezes.

Quando levaram o corpo para o hospital corri para o banheiro e veio tudo, vômito e sangue. Não, eu não estava grávida.

A partir daquele dia começou o meu luto.  Sim, eu estava SOZINHA.

Cap. final – Sortuda

28/12/2011
by Douglas Freitas

Not Over You 

Antes:  Cap. 01 –  Confusa
Cap. 02 – Sozinha 
Cap.03 – Sem dormir 
Cap.04 – Tentativas 
Cap. 05 – Preciso Recomeçar 
Cap.06 – Talvez 
Cap.07 – Emergir
Cap.08 – Mais forte
Cap. 09 – Endorfina   

“Você acredita que uma mulher pode transformar um homem por completo?”, ele me perguntou.

Eu fingi que não ouvi e desconversei falando uma bobagem qualquer sobre o programa que passava na televisão. Não queria para mim a responsabilidade de “transformar alguém”.  Não agora, muito menos dessa forma. Já estava sendo demais para mim aceitar aquela aproximação e encarar o que começou a existir entre nós. Não foi fácil me desprender das acusações impiedosas da minha consciência.  Talvez eu demonstrasse, falasse e até me entregasse pouco,  mais isso estranhamente parecia fasciná-lo. “Você me acha repulsivo?“, perguntou algumas vezes. Não tinha como não rir daquela inocência.

Diogo demorou a entender que eu não era uma pedra de gelo, uma insensível cheia de segredos que só queria usá-lo. Aliás, que títulos, não? Não liguei nem um pouco para isso.

Fugi o quanto pude com um medo sincero de sentir. Meu coração estava fechado, de luto, repetia para mim mesma. Tinha também a covardia, o medo, o remorso e a culpa. Medo de sofrer, covardia por me achar fraca demais. Remorso e culpa toda vez que olhava dentro daqueles olhos verdes e me sentia presa, sem forças para resistir. Era intenso demais aquele olhar.

Eu me senti suja. Sem moralismo, eu sei que a morte encerra ciclos, mas não podia simplesmente ignorar tudo o que tinha vivido, todos os bons momentos que havíamos compartilhado. A dor da perda. Como querer viver tudo de novo? E se acontecesse… Não! Eu não podia nem imaginar perder alguém outra vez.

Achei que viveria um luto eterno, mas pouco a pouco as coisas foram mudando e a morte súbita do meu namorado deixou de pautar as minhas decisões. Foi mais forte do que eu! Quando dei por mim já estava indo mais arrumada para a academia. Não faltava um único dia sequer. De canto de olho sempre o observava e ficava realmente frustrada no dia em que ele não aparecia.  Entre olhar, sofrer, querer e ter, foram algumas semanas. Como eu chorava em casa me achando a pior das criaturas. Como eu chorei por perceber que mesmo sem trocarmos uma única palavra, tínhamos algo para viver.

Diogo tentava se aproximar e eu esforçava para ficar indiferente ao charme dele. Ele me irritava. Muito.  Odiava não saber como agir, o que falar ou como me desvincilhar sempre que ele se aproximava. Pior: eu percebi que adorava todas aqueles momentos, o jeito destrambelhado, as coisas que dizia, as histórias que contava.

Como disse não foi fácil aceitar isso. Chorei muitas noites e quis de verdade arrancar aquilo do meu coração. Liguei para as minhas amigas, para a minha sogra, para o Murilo e para todos os nossos outros amigos na esperança que algum deles me recriminasse dizendo que eu estava completamente errada na condução dessa história. Mas não, todos eles se mostraram realmente entusiasmados, felizes com o meu recomeço. “É uma chance”; “Você não tem nada a perder”; “Seja feliz”. Como se fosse fácil…

Minha sogra disse que admirava o meu luto, mas que eu era jovem e merecia ser feliz de novo. Que eu podia ficar em paz que um amor não excluiria o outro.  Será? Talvez ela estivesse certa. Repeti para mim mesma até que essa teoria fizesse muito sentido para mim. Quando comecei a encarar os fatos desse jeito, me senti um pouco mais leve e com ainda mais vontade de me aproximar do Diogo. Foi o que fiz.

Contei a ele tudo o que havia acontecido, a história toda, do encontro à morte súbita,  e surpreendentemente me senti respeitada, protegida. Pela primeira vez ele deixou de lado as piadinhas machistas, as investidas cafonas, me pegou pelos braços e me abraçou forte.  Chorei muitas vezes envolta pelo calor do seu abraço. Ele sempre me ouvia em silêncio. Nada mais do que isso. Até o dia em que nos olhamos, sorrimos e aconteceu. Foi um beijo intenso, quente, libertador. Foi uma descarga de toda a tensão sexual que existia entre a gente, do tipo que enlouquece. Do beijo para a cama, sexo, lágrimas. Ele também chorou e eu não entendi o porquê, mas não perguntei. De verdade eu não queria saber.

Estava preparada para que ele depois disso não me procurasse mais. Até preferiria se fosse assim, mas não. Ele me mandou flores, ligou (muitas vezes), sem contar todos os SMS.  Nada de cobranças ou chatices, apenas preocupação… comigo!  Ele só queria saber se eu estava bem, se estava preparada para vê-lo de novo.  Não sabia se estava. Depois da culpa, a vergonha. Por fim aceitei o que estava acontecendo e encarei de fato que gostava da companhia dele. Nos revemos uma, duas, muitas vezes. Respeitávamos nossas diferenças e não cobrávamos nada um do outro. Até aquele dia.

- Você está desconversando… Acredita ou não que você me transformou?

- Diogo… Eu passei a não acreditar em muitas coisas. Se eu te faço bem…

- E eu? Eu te faço bem?

- Diogo…

- Okay, desculpa. Eu só quero dizer para você que realmente sou um novo cara. Jamais podia imaginar que um dia ia querer ficar assim… com alguém.

Envergonhado abaixou os olhos e ficou vermelho. Eu ri baixinho ao constatar que tudo aquilo era novo para ele. Não precisava  ele abaixar a guarda e me confessar que aquela era a primeira vez que se declarava para alguém, e que tinha medo de uma hora para a outra ser abandonado.  Eu sabia exatamente o que ele estava sentindo.

Sim, ele estava diferente, pelo menos do cara que conheci e do babaca das histórias que me contou. Ofereci uma vaga na minha equipe de trabalho e em pouco tempo ele conquistou a simpatia de todo mundo. Também, com todo aquele charme… Daí foi um passo para o que ele chama de “grande encontro com o puta marqueteiro que ele é”.  Passou a liderar um grupo de pequenos promotores e, semanas depois, já tinha sua própria equipe e clientes. Tinha que dar os parabéns porque tinha sido uma performance elogiável. Eu havia descoberto um talento… era boa nisso!

Ele me fazia sim muito bem. Eu me via de certa forma nele. Encontrava a pessoa que eu tinha sido antes de passar por todo aquele inferno. Ele me divertia e de alguma forma que não sei dizer como, me completava.

Como minha agora ex-sogra disse, era diferente. Eu não comparava, apenas vivia, um dia após o outro.Talvez eu fosse de fato, como o Diogo sempre repetia, uma mulher de sorte. Muitas coisas ruins aconteceram, mas eu não podia reclamar. De alguma forma inexplicável, eu estava viva e amando de novo.  E ainda que pudesse ser uma loucura sem tamanho, eu ainda tinha meus sonhos e muita coisa boa também para lembrar. Não existia fantasmas entre a gente, porque ele também respeitava a minha perda e sempre dizia que tinha se apaixonado pela mulher que eu sou hoje e não por aquela que eu tinha sido.

- Um cara de sorte, por ter te encontrado. Por você ter caído bem em cima da minha vida e mudado tudo. Uma mulher de sorte, por ter caído bem em cima de um outro amor e não estar mais sozinha.

- Bonito isso….

- Gostou?

- Gostei!

- Gostou mesmo?

- Claro… Você ainda duvida?

- Não, nem abriria espaço para qualquer questionamento se tenho na minha mente muito clara uma afirmação.

- Que afirmação?

- Que mais do que um cara ou uma mulher de sorte, nós juntos somos UM CASAL DE SORTE por termos um ao outro e nos completarmos tanto.

Nos beijamos por muito, muitooooooo tempo. Com o tempo eu tenho certeza que passaria a acreditar naquilo também.

Cap.final – Não sou repulsivo

26/12/2011
by Douglas Freitas

Wilhelm Tell Me – So Into You (Album Edition), também na trilha sonora de “Um cara de Sorte“, por@tudoquecabeaqui.

Antes: Cap.01 – O Estepe da Cléo
Cap.02 – Já falei que sou um cara de sortudo?
Cap.03 – A 200 metros de distância
Cap.04 – Homem Objeto
Cap.05 – Cléo, de boa? Próxima!
Cap.06 – Eca que Ica!
Cap.07 – Por conta própria
Cap.08 – Aqui se faz, aqui se paga
Cap.09 – O mar não está para peixe
Cap.10 – A revanche Lambda, Lambda, Lambda

Veja bem, eu estou acostumado a receber todo o tipo de classificação e, se você quer saber, não me importo. Se quiser me achar um babaca, problema seu, não dou a mínima. Mesmo porque eu sei que isso é puro recalque e dor de cotovelo. Mulheres não sabem levar um fora e quando percebem que tomaram um pé na bunda, perdem a classe e partem para a artilharia pesada, para os insultos e difamações.

Uma vez disseram que eu tinha o pau pequeno, outra que era PÉSSIMO de cama e também “que eu não sabia beijar direito”, como se não bastasse o mínimo de predisposição e vontade da minha parte para desmentir a tudo isso. Confio no meu taco e ponto final.

Mulheres abandonadas, sozinhas, se tornam loucas, psicóticas e vingativas. Parecem viver em função do seu orgulho ferido, como se isso fosse a válvula para que se sintam melhores e donas do jogo. A pergunta é, qual jogo? Da minha parte nunca existiu nada… Pena delas que acreditaram em alguma coisa. Quero dizer, faz parte da conquista falar coisas bonitas, encantadoras. Por uma foda, sou capaz até de dizer “eu te amo” no primeiro encontro. Agora quem em sã consciência acreditaria nisso, vindo de um cara que acabou de conhecer? Fala sério, é muita inocência e carência. Funciona na maioria das vezes, by the way. O problema, repito, é de quem acredita. Não de quem fala.

Com ela foi diferente. Estranho isso. Ainda estou tentando assimilar tudo o que aconteceu.

Bom, como eu já contei aqui, as coisas não estão fáceis. O universo parece conspirar contra mim enquanto eu quebro a cabeça para conseguir reverter tudo e voltar a ser o bom e velho Diogo de sempre. Mas aquela havia sido mais uma tarde em vão. Horas perdidas atrás de uma fórmula de sucesso, a ideia mirabolante e inovadora que me faria ganhar milhões em pouco tempo. Para piorar, não consigo pensar em nada além de sexo. Eu estou na seca, precisando dar uma descarregada, mas estranhamente não me sinto mais tão confiante e irresistível como antes, e isso está refletindo no meu mau desempenho com as mulheres. Não estou pegando nada… foda! Deve ser isso que chamam de cheiro do fracasso. É repulsivo… O pior é que parece uma roda cíclica e sem fim. Quanto mais sem sexo, mais sem cabeça para outras coisas, mais sem ideias inovadoras, mais sem confiança, mais sem sexo, mais sem… Meu Deus, vou enlouquecer se isso não parar!

Ia embora frustrado repetindo em silêncio que não, eu não sou repulsivo e que isso é só uma fase. A pior que eu já passei. Foi quando ela caiu em cima de mim. Não sei muito bem como aconteceu, mas em um ato reflexo estendi os braços e a segurei no exato instante em que ela tropeçou e se desequilibrou da esteira.

Será que isso era um sinal? Alguma mensagem? Do tipo, “hey, acredite em você… você é muito importante, um herói“. Hmmm, preciso formular melhor isso.

A verdade é que se eu não estivesse ali ela teria batido a cabeça na quina do aparelho e provavelmente morrido. Sério, não estou exagerando. Sortuda! Ela estava bastante suada, mas mesmo assim fui educado e tentei puxar um papo. Quis saber se ela estava bem. Eu queria mesmo poder ajudá-la (desde que isso não tivesse um custo e quem sabe pudesse render alguma coisa, hehehe).

Ela era bonita. Um pouco descuidada, eu diria, mas tinha alguma coisa me deixou completamente excitado. Obviamente a testosterona acumulada estava mandando o seu recado, mas eu até que me controlei. Segurei ela pela cintura e evitei não deslizar um pouco a mão. Se bem que nem deu muito tempo. Ela abriu os olhos e me olhou de um jeito estranho, assustado. Eu também achei estranho e fiquei impressionado com o tanto que me senti atraído. Depois disso, desviou olhos, se levantou e saiu correndo para o banheiro como se tivesse acabado de ver um fantasma.

Por quê? Não, aquilo não estava certo. Ela não tinha nem me agradecido de forma satisfatória por eu ter salvado a vida dela. Mais: tinha me deixado todo melado com o seu suor e falando sozinho. Não, não pode ser.

Raiva.

Não…

Mas ela me deixou ali falando sozinho.

Não, eu não sou…

Quem ela pensa que era?

Não sou repulsivo.

Porque tinha me olhado daquela forma?

“Diogo, você não é repulsivo. É só pensar um pouco. Olha o tanto de menina que você já ficou”

Porque eu não consigo parar de pensar nela? E esse cheiro do perfume dela que estou sentindo desde ontem?

Claro que eu não sou repulsivo…

Porque então ela saiu correndo?

Não sou repulsivo, porra!!!

Porque fiquei tão excitado e de forma tão automática?

Chega! Eu vou provar para aquela mulher que eu não sou nada repulsivo. Quer apostar quanto que eu consigo ganhar mais essa?

Cap.13 – Sacudir a poeira e recomeçar

23/12/2011
by Douglas Freitas

The Temper Trap – Rest, na trilha sonora de “Roberta e Tiago”,  por @tudoquecabeaqui.

 

Antes: Capítulo 01 – Amor de pista, fica?
Capítulo 02 – A queima do sutiã
Capítulo 03 – Xixi desavergonhado
Capítulo 04 – Antes mal acompanhada do que só
Capítulo 05 – Jogo de Cintura e atitude
Capítulo 06 – O lixo é luxo
Capítulo 07 – Discos de Raul
Capítulo 08 – Balança, mas não cai… despenca
Capítulo 09 – A cabra expiatória
Capítulo 10 – As dez melhores notícias
Capítulo 11 – A hora H (de horrível)

Capítulo 12 – Amor de pista não fica

 

Bem, minhas amigas estavam certas. Eu realmente preciso esquecer o Tiago, mas não da boca para fora. Esquecer de verdade mesmo, sabe? Tiago? Quem? Não me lembro… Ótimo! Vou treinar. Não vai ser nada fácil, mas sou MADURA e EXPERIENTE. Na maioria das vezes tenho me comportado como uma adolescentezinha desmiolada, mas agora eu coloquei a cabeça no lugar, certo? Incrível como homens são capazes de nos desestabilizar.

Fiz um fluxograma com os cinco passos que terei que caminhar para apagar de uma vez por todas esses últimos meses da minha vida. Adoro aplicar conceitos que utilizo no meu trabalho para organizar e estruturar a minha vida pessoal. Quase sempre dá certo… Vamos lá:


Passo 1 – Comece deletando toda e qualquer forma de contato que possa existir entre vocês

Não é à toa que esse é o primeiro passo. Falo por experiência própria: um telefone na agenda do celular em um dia que você exagera no vinho, dá merda! Não interessa que eu saiba o telefone do Tiago de cor e salteado, de trás para frente. Um dia eu vou esquecer!

Encerro também de uma vez por todas a conta no Facebook da Fabi. Dei uma última conferida no mural dele, mas agora eu não conseguia ver quase nada. Certeza que ele tinha me bloqueado depois daquele incidente na entrada da Show.me. “Você não é a Fabi! Que coisa mais ridícula se passar por outra pessoa”, falo para mim mesma em voz alta. Posso sobreviver sem isso.


Passo 2 – Delete tudo (mas tudo mesmo) que lembre  qualquer jantar, viagem ou noite romântica que vocês tiveram juntos. Ah! É importante não deixar uma única foto sequer desses momentos. Problema seu se vai perder todas as lembranças daquela viagem incrível que fez. Nada de apego. E não vai bancar a espertinha e digitalizar tudo! Presentes e recadinhos apaixonados também precisam desaparecer. Rasgue e queime TUDO.

_
Ok, posso fazer isso. Sem apego e sem remorso. Quer dizer, só não vou mexer no meu projeto secreto II (tipo os do Ty do Extreme Makeover, sabe?). Sei lá, não por esperança. Juro! É que deu um trabalhão danado, poxa.  Fiquei umas duas semanas enfurnada lá dentro e muito focada para deixar tudo no devido lugar. Não vou simplesmente desmontar tudo como se estivesse brincando de casinha.

Ufa! Isso é cansativo.  Preciso dar um tempo, relaxar um pouco. Que tal uma partidinha de paciência? Não, Roberta… Daqui a pouco você vai estar jogando bocha. Dou uma olhadinha na minha timeline. Nada de muito interessante. Porque tudo parece tão chato? Preciso me motivar! Hmm… MSN Messenger… Nossa, quanto tempo não entro nisso! Também com o chat do Facebook… Briga de gigantes, não tenho nada a ver com isso.

Foi quando aconteceu. Merda! O Tiago está online.

Calma Roberta. “Controle-se!”.  Se meu pensamento tivesse voz, com certeza esse “Controle-se” teria saído estridente. Gente, cadê a minha maturidade? Novamente me sinto como uma adolescente: meu coração parece que vai sair pela boca!

Ok, o que eu faço? Aja naturalmente… Hmmm, só por curiosidade, vai… Ok, eu posso fazer isso. Clico no nome dele e sinto uma lágrima descendo por meu rosto quando a foto dele aparece no quadradinho. Olho para cima e respiro fundo, numa tentativa idiota de fazer com que as outras fiquem presas dentro dos olhos.

É como um daqueles desenhos animados em que uma Roberta capetinha fica de um lado mandando eu puxar papo e uma Roberta angelical exige firmemente que eu saia do programa. “Você não quer sofrer mais, você não merece…”. “O que custa? Só um oizinho não vai te deixar pior nem melhor. Não custa…”.

Sabe aquele ditado que diz “tá no inferno abraça o capeta”? Pois bem…

Ensaiei algumas vezes formas frugais de começar o papo, mas preferi deixar como estava. Na verdade não consegui mesmo… Nunca foi tão difícil falar um “oi”. Fechei a janela certa de que aquilo era mesmo o mais apropriado. Já tinha feito mal o suficiente para ele, não é mesmo?

Entrei em alguns sites, tentando enganar a mim mesma fingindo estar interessada nas notícias, mas meu coração continuava disparado e minhas pernas se agitavam nervosas embaixo da mesa.

Chega de notícias. Vamos ver quem mais está online na minha lista de contatos…

Meus olhos correram por todos os nomes, mas ele não estava mais online.  Será que ele tinha saído? E se ele tivesse me deletado? Que ódio! Eu devia ter puxado papo quando tive a oportunidade.  Não, na realidade EU que devia ter excluído ele antes,  pensei me lembrando do fluxograma.

Quando me preparava para sair e voltar a me focar no nos três passos restantes, adivinhem só: “Tiago acabou de entrar”! Quase na mesma hora, uma janelinha apareceu e começou a piscar com o seu nome. Não acredito!!!  Ele está falando comigo!

É uma sensação que definitivamente não consigo descrever, mas tenho certeza de que vocês devem imaginar. A minha mão trêmula deslizou o mouse até a janela. Cliquei.

- Oi.

Simples assim.

- Oi.

- Como você está?

- Bem e você?

- Estou bem também. É…

“…” Olho para a janela esperando a continuação daqueles malditos três pontinhos. O MSN me avisa que “Tiago está digitando”, mas depois esse aviso desaparece. Depois aparece de novo. Seja lá o que ele tiver escrevendo, ele parece ter desistido no meio do caminho e recomeçado.

- Faz um tempo que estou aqui decidindo se falo ou não com você, mas é mais forte do que eu.

Atônita. Reli três vezes. O QUE EU RESPONDO? Aiiii, não sei… Preciso de ajuda. Vou ligar para a Fê e pedir um conselho…

- Oi, Roberta. Você ainda está aí?

- Oi, estou. Fico feliz que você tenha falado… – disse, mas não estou certa de que foi a coisa mais inteligente e apropriada.

- Já era para termos conversado, mas é que têm tantas coisas acontecendo…+

- É… comigo também.

- Estou tocando em uma casa, você sabe…

-  É, eu sei. – O que estava acontecendo comigo? Porque eu estava tão monossilábica? Cadê a Roberta desenvolta e comunicativa?

Dois minutos de “silêncio”. Isso não era um bom sinal… Precisava puxar um papo, mas o quê?

- Bom, acho que vou sair e comer alguma coisa.

- Já vai?

- Sim, quero voltar logo e terminar um set. Quero postar ainda hoje no meu Soundcloud.

- Ah tá… Legal… Então tá…

- Bom falar contigo, Roberta. Ah, só mais uma coisa.

Institivamente cruzei os dedos e torci para que ele me convidasse para sair.

- Fala…

- Mundo, mundo vasto mundo se você se chamasse Fabiana não seria uma rima, nem uma solução… rsssss. Beijos, a gente se fala.

Senti minhas bochechas queimarem.  Ai, meu Deus! Anda, rápido… Faça de desentendida…Não, isso não é completamente imaturo. Afinal, ele me viu entrando na Show.me com esse nome. Hmmm…. Que desculpa posso dar para ter saído de casa “Fabiana” justo na noite da estreia dele? A desculpa tem que ser boa o suficiente também para justificar o perfil fake… Desisto!

Antes que eu desconversasse, ele ficou off-line. O que tinha acabado de acontecer?

Como ele não estava mais ali, senti coragem e finalmente digitei tudo o que estava entalado em minha garganta desde aquela última noite na Show.me.

- Sinto muito por tudo que eu te fiz Tiago. Se você soubesse o tanto que eu me arrependo. Daria tudo para voltar no tempo… Sinto saudade, muita, o tempo todo.

Parte B – O melhor dia de nossas vidas

Não sei se foi a melhor coisa que fiz, mas está feito.  Isso não me deixa tranquila. Na realidade tenho estado online quase 24 horas por dia só esperando a resposta, que quando finalmente chega me frustra um pouco.  A verdade é que eu esperava bem mais do que um simples “ok”. Ok pode ser qualquer coisa e ao mesmo tempo não significar nada. Ai que raiva!

Fico online e conversamos mais um pouco. Papo sobre música, marketing e notícias do Brasil e do mundo. Boring, mas melhor do que nada.

Depois, desse dia nos falamos quase que diariamente. Okay, vou contar para vocês uma coisa que nem as minhas amigas sabem: A gente se fala várias vezes no mesmo dia, sobre tudo o que está acontecendo. Isso é tão adolescente, eu sei.  Eu chego a ficar invisível só esperando ele ficar online. Gente, eu tenho 15 anos! Preciso voltar para a terapia. Mas é que é tão gostoso tudo isso… Espera… Será que ele está me vendo como amiga?

- Tiago, estamos virando amigos?

Eu sei, direta demais. Foda-se.

- Que?  Do que você está falando?

- Se estamos virando amigos…

- Sempre fomos, não?

- É.

- Quer conversar sobre isso?

- Você não quer passar lá em casa mais tarde? Aí a gente fala sobre isso…

Mais do que direta. Eu sei. Sei lá… Esse lance de ser “amiga” dele realmente me perturbou.
Queria olhar dentro dos olhos dele e provar para nós dois que éramos muito mais do que isso.  O medo de me tornar apenas uma confidente foi tanto que eu nem me dei conta do que tinha acabado de fazer. Que louca! E quem disse que eu estava preparada para um encontro?

- Pode ser… Passo lá por volta das 8, pode ser?

Ele aceitou! Não acredito. E agora? Eu nem marquei a minha ida ao salão de beleza.  Ele não pode me ver desse jeito.  Tenho que estar LINDA e IRRESISTÍVEL. Ah! Vou ser bem madura  e sensata nesse encontro. Vai ser tipo um amor à milésima vista, sabe? Nada de apenas bons amigos.

Saio do escritório às pressas, mas não dá tempo. Nada de cabeleireiros, manicures, maquiadores. Maldito trânsito de São Paulo! Não dá tempo nem mesmo de eu me acalmar.

As oito em ponto o interfone toca.  Um pouco relutante, ele entra e me cumprimenta com um beijinho no rosto. Tudo está meio estranho. Estamos meio que constrangidos um com o outro. Era para ser um olhar fulminante e um beijo apaixonado. Era para não termos resistido um ao outro, mas estávamos visivelmente desconfortáveis com aquela situação. Parecia que não nos falávamos desde o dia em que ele saiu carregando suas coisas. Parecia que tinha sido ontem…

Sirvo um pouco de água e volto a me sentar. Ele segura o copo com as duas mãos e percebo que elas estão um pouco trêmulas. Porque ele parece estar evitando olhar para mim?

Preciso sair daqui, respirar um pouco e pensar em uma forma de quebrar esse gelo. Vou ao banheiro, jogo um pouco de água no rosto. É mais forte do que eu. Tenho certeza absoluta de que amo aquele homem que está lá fora. Quer saber? Vou sair e dizer exatamente isso.

Encontro Tiago parado em frente ao quarto-estúdio (o meu projeto secreto II). Sonhei tanto com esse momento. Pareço dentro de um filme. Achei que isso nunca ia acontecer!

Ele leva uma mão à boca e encosta a outra no parapeito da porta. Começa a chorar copiosamente enquanto analisa todo o ambiente. E se ele tiver achado aquilo uma brincadeira de mau gosto?  Tropeço no tapete, o que atrai a atenção dele. Começo a chorar também.

- O que é isso, Roberta? O que significa isso?

- É o meu projeto secreto. Tipo do Ty, sabe? Daquele programa da TV. Tem um tempo que está pronto. Eu tinha feito para você.  Tentei deixar tudo do jeito que estava, do jeito que encontrei naquela manhã…

Tiago se vira e entra no quarto-estúdio. Pega um disco na mão e volta a me olhar.

- Você… não acredito. – e chora mais um pouco.

- Eu precisava devolver tudo isso. Nunca devia ter feito aquela bobagem toda.

- Eu não podia imaginar…

- Nem eu podia imaginar que eu ia estragar tudo. Juro que não fiz por mal, Tiago.

- Estão todos aqui – ele parece realmente chocado.

- É, eu consegui. E tá vendo ali? Tirei o puff vitrola!

- Roberta…

- Só queria que você me desculpasse por ter te afastado das pick-ups naquela época. Só hoje percebo o mal que fiz, mas juro que em nenhum momento foi por mal. Eu fui bastante egoísta, né?

- Roberta, sabe do que mais?

- O que?

- A gente aprende com tudo isso…

- Nossa… Eu que o diga…

- E passa a enxergar muitas coisas também.

- Eu sei…

- Coisas que a gente não via, ou não valorizava, e que são realmente especiais.

- Você não precisa dizer. Eu sei o tanto que fui idiota e egoísta.

- Sabe o que eu vi nesse tempo todo?

Não consigo dizer, mas não evito que meus pensamentos repitam: “Que eu sou uma idiota? Uma egoísta?”. Mas não. Quase desmaio quando cada uma das próximas palavras saem da sua boca:

- Que definitivamente eu não sei viver mais sem você, Roberta.  Eu te amo!

Perfeito. Finalmente nos beijamos. Nada do tal olhar fulminante e beijo apaixonado que eu tinha imaginado.  Nossos olhos, tomados por lágrimas, estão fechados. O calor da respiração, o toque de nossos lábios, das nossas línguas. Um beijo lento, intenso… de amor. Eu estava literalmente voando sobre as nuvens.

Cap.09 – Endorfina

21/12/2011
by Douglas Freitas

Wilhelm Tell Me – So Into You (Album Edition), na trilha sonora de “Sozinha”,  por @tudoquecabeaqui.

 

AntesCap. 01 –  Confusa
Cap. 02 – Sozinha
Cap.03 – Sem dormir
Cap.04 – Tentativas
Cap. 05 – Preciso Recomeçar
Cap.06 – Talvez
Cap.07 – Emergir
Cap.08 – Mais forte

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Eu estou me sentindo bem melhor. Percebi  que  quanto mais ocupo a minha mente, menos tempo sobra para todo o resto.  Cheguei a ficar 14 horas trabalhando, sem que me desse conta disso. Tamanha dedicação foi mal interpretada pelo pessoal do RH e eu fui formalmente proibida de fazer horas extras. Eles disseram que admiram o meu empenho, mas acima de tudo zelam pela qualidade de vida de todos nós funcionários. Eu justifiquei que era exatamente aquilo que o trabalho me trazia: vida! Não adiantou. Usei outro argumento, que segundo eles demonstrou um estado preocupante de envolvimento que poderia culminar em uma estafa mental e, consequentemente,  prejuízos corporativos. Egoístas! Porra de direitos trabalhistas. Passei a ter hora para entrar e sair, das dez  às 19 e nem um minuto a mais. Saco!

Foram as meninas que me sugeriram aproveitar o tempo livre para fazer ginástica . No primeiro momento, achei uma ideia idiota, nonsense. A última das minhas preocupações naquele instante era ficar gostosa. Eu só queria um passatempo, sabe? Mas  aí eu descobri a Zuzana, do site bodyrock.tv. Meu Deus, que mulher incrível!!! Ela realmente me empolgou com todos aqueles exercícios. Tá certo que eu não consegui terminar nem uma série na primeira semana, mas foi MUITO legal. A melhor parte é que eu podia fazer tudo em casa… Sozinha!

Bom, pelo menos até a terceira semana quando eu saturei da prepotência da personal trainer em achar que todo mundo era como ela. E daí que eu não conseguia terminar as três séries ou chegar ao fim do circuito? Custava ela ser um pouquinho compreensiva? Não, né?!? Melhor ficar desdenhando do meu mau desempenho ou me desafiando a ser mais forte do que eu era…  Eu nem estava tão fora de forma assim. E quem era ela para falar em força? Por acaso ela fazia ideia de tudo o que eu tinha passado e como tive que ser forte para me manter em pé? Escrevi um e-mail mandando-a À MERDA. Assim mesmo, com todas as letras, em caixa alta e negrito.

Mas os exercícios tinham me feito bem, não é? O problema era a Zuzana, claro.  E se eu voltasse à academia pelo menos na tal semana promocional? “Não custa tentar”, pediram as minhas amigas.

Pois bem, eu já estava há quase três horas ali, entre uma aula e outra, e isso já devia ser o suficiente para me fazer chegar em casa exausta. EXCELENTE! Mas a verdade é que eu queria mais. Fiz todas as aulas disponíveis,  uma de jump, outra de spinning e, por fim,  alongamento. É claro que eu pensei que ia ter um treco várias vezes, mas persisti. Em alguns momentos me vi pensando nele.  Nessas horas, eu tirava força sabe-se lá de onde e pulava mais alto ou pedalava mais forte, até que qualquer lembrança desaparecesse por completo da minha mente. Não sou nenhuma atleta, beeeem longe disso. Os professores pediam calma, que aquele era o meu primeiro dia, mas quanto mais eu me exercitava (e apesar de todo o desgaste físico), melhor eu me sentia. Eu tinha que agradecer – e de joelhos – à endorfina!

Olhei no relógio bastante frustrada por ainda ser dez horas. E se eu corresse um pouquinho na esteira? Sei lá, uns quinze, vinte minutinhos. Ótima ideia.

Regulei o cronômetro, a velocidade e comecei o meu cooperzinho.  Tudo perfeito, até eu pensar nele... Apertei botão e aumentei a carga e a velocidade. Uau! Eu estava praticamente correndo. Quase uma maratonista. Nossa, pensando bem acho que essa esteira estava um pouco rápida demais…

Não sei se foi a minha vista que embaralhou, mas juro que li a palavra Viva! (assim mesmo com direito a exclamação) no visor, entre os batimentos, gasto calórico e trajeto percorrido. Sem parar de correr, esfreguei os olhos e voltei a mirar no relógio, mas minha visão escureceu e eu senti uma vertigem forte. Antes que eu conseguisse parar e descer em segurança, tropecei. Automaticamente, fechei os olhos e contei os segundos esperando pela dor… Que não veio! Ia ser um tombo feio, mas alguma coisa tinha me sustentado no ar.  Alguma coisa com braços fortes e voz masculina.

- Opa… Cuidado!

- Obrigada –  respondi morta de vergonha. Será que alguém tinha visto?

- Você está bem?

- Estou sim… Muito obrigada, de novo… – disse enquanto me levantava.

- Que isso, não precisa agradecer. A verdade é que você é uma mulher de sorte, sabia? Já imaginou se eu não estivesse passando por aqui? Você ia ter caído bem em cima dessa quina aqui– disse apontando o aparelho. Abri os olhos e acompanhei a sua mão me mostrando a tal “quina” da esteira. Realmente…  – Puts, salvei a sua vida!

Ajeitei o meu corpo e, tentando parecer tranquila, estendi o braço para agradecê-lo. Forcei um sorriso e levantei a cabeça até que nossos olhos se encontraram. Não durou mais do que três segundos, juro, mas quando me dei conta estava correndo em direção ao vestiário. Nervosa, tremia dos pés à cabeça com o que tinha acabado de acontecer. Não, não podia ser. Eu conheço aquele olhar!

Fui até o lavabo e joguei um pouco de água no meu rosto para ver se acordava daquela alucinação. O coração disparado e o frio na barriga não ajudavam muito. Aqueles sintomas eram um alerta de que sim, tinha algo errado naquilo tudo. O olhar…  A forma, o jeito, a intensidade e o brilho… Eu conhecia. Era o mesmo que o dele.

Antes tivesse caído e batido a cabeça.

Cap.10 – A revanche Lambda, Lambda, Lambda

19/12/2011
by Douglas Freitas

She doesn t know – Valerius by rtvrijnmond

Antes: Cap.01 – O Estepe da Cléo
Cap.02 – Já falei que sou um cara de sortudo?
Cap.03 – A 200 metros de distância
Cap.04 – Homem Objeto
Cap.05 – Cléo, de boa? Próxima!
Cap.06 – Eca que Ica!
Cap.07 – Por conta própria
Cap.08 – Aqui se faz, aqui se paga
Cap.09 – O mar não está para peixe

Aquele nerd filho de uma… bom, desculpa. Mas é que além de rir da minha cara, saiu sem pagar o café que pediu. Fala sério! É bom que eu aprendo a nunca mais esperar alguma coisa de quem quer que seja. Vingancinha barata, quanta infantilidade! As pessoas tem que superar as coisas, eu disse para ele. Risos, gargalhadas, olhar de superioridade e deboche. Ele parecia realmente satisfeito em me ver ali, quase que implorando por uma parceria milionária.

O Estevão continuava o estereótipo clássico de nerd, o que poderia tornar-se um problemão de convivência.  Solitário – a melhor das companhias continuava sendo os livros e o computador – adorava física e matemática, emergia de teorias, cálculos e fórmulas complicadíssimas, e ainda usava os mesmos óculos fundo de garrafa. Looser! Longe de mim querer ofendê-lo!  Eu fui extremamente simpático, compreensivo e solícito. Até ofereci pagar o café (!!!), mesmo sem ter um puto na carteira. Tenho total consciência de que o mundo é nerd, valia entrar no vermelho. O nome disso é investimento, certo?  Com a ascensão das novas tecnologias,  qualquer hora é o momento exato para uma programação de computador virar um negócio de bilhões de dólares. Eu realmente quero fazer parte disso! Eu tinha a ideia (consultoria de sexo e rede social para amantes) e ele devia saber como tirá-la do papel.

Foi como eu contei. Risos, gargalhadas, olhar de superioridade e deboche. Ele nem esperou eu terminar de falar!  Como se eu fosse um idiota e a minha ideia uma asneira, saiu dizendo que tudo aquilo era um desperdício de tempo.

As coisas estão muito estranhas mesmo e não é só por isso. Meus pais que continuam a fingir que eu não existo, o gerente do banco me liga dia sim, dia não, o meu cartão de crédito foi recusado (e agora bloqueado) e, por fim, a falta de sorte com as mulheres. Não tô comendo ninguém, o que está me tirando do sério. Também, de uma hora para a outra não consigo nem oferecer um drink, como esperar que minhas cantadas sejam bem recebidas?

O único avanço que estou tendo mesmo é na academia onde consegui ganhar dois quilos de massa magra. Também, é a única coisa que faço o dia todo. Nunca gostei tanto de malhar. Chego a ficar três horas lá dentro enquanto quebro a cabeça para encontrar a galinha dos ovos de ouro que irá me fazer ressurgir das cinzas e ainda rir de tudo isso. Vou provar para todos eles que sou capaz. Tudo vale como aprendizado, não é mesmo? É só uma fase, repito para mim mesmo entre as quatro séries do supino.

Ah! Acredita que até a Cléo tirou uma com a minha situação? Ela ontem me ofereceu um suco. Pois é, nós sentamos como dois adultos sensatos e conversamos sobre todos os acontecimentos. Esperava que ela se sensibilizasse com a minha maturidade e reconsiderasse a nossa volta (ou pelo menos cancelasse o processo… não tenho mais um centavo para gastar com advogados).

Nem uma coisa nem outra. Por isso que eu digo e sem remorso: ela é uma vagabunda!